segunda-feira, 24 de outubro de 2011

"NADA DE ESQUECER PERDAS E DANOS"





Uma chacina paira em Campinas
Maria Madalena Manga

Corações repletos de egoísmo,
Em nome do “especieísmo”
E sem rubor na cara
Decretaram holocausto às capivaras
Usam da primazia
Da "superioridade" da hierarquia
Estão no topo da pirâmide
Onde a crueldade se expande
Como gavinhas
De ervas daninha
Tudo é relativo
Envolvendo seres vivos
Mas nem sempre é o grande
muito maior do que o pequeno
É só suprimir o veneno
Que como teia
A maldade enleia.
Não sou dona da verdade.
Mas penso que na eternidade
Na vastidão cósmica
Deva haver outra lógica:
Seres "insignificantes"
Como as capivaras
Podem ser jóias raras
Por serem inocentes
Diferentes dos prepotentes.
-Diz prosaico preceito judaico:
Quem usa de covardia
Com inocentes que Deus cria,
Terá de responder num tribunal
No dia do juízo final.
Que o irmão Francisco
Suspenda o confisco
Da vida desses seres magníficos.
-e que o senhor das eras
Promova a primavera
E faça resplandecer
Um áureo alvorecer
Sobre toda criação:
Homem, planta, animal
São todos irmãos...
Que venha  o mundo de Isaías
Para que todos vivam em harmonia!
(Batalhadora pela Causa Animal em Campinas SP, autora tem publicado "Nos Confins do Arco Íris, Tocha da Paz, Poesia e Protesto,Cânticos do Infinito, 
A Cor da Dor, Meu Outro Eu, Nossas Poesias e atualmente prepara uma Antologia).
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sábado, 22 de outubro de 2011

Não contribuirei com um só Óbolo para a Construção 
do Novo Mundo
Aristides Theodoro
Fonte: Colégio Brasileiro de Poetas
Atenção Senhores construtivistas, leninistas, trotskistas, marxistas
Utopistas, capitalistas, guevaristas, zapatistas, sandinistas, consertadores do mundo:
Não me procurem, quando passarem com vossas sacolinhas de bocas grandes, devoradoras de ofertas destinadas a reconstrução do novo mundo.
Estou fechado para o almoço. Não me procurem!  Soou o sinal invisível, não estou aqui,
Por isso não darei um só óbolo para a vossa campanha.
Não estou a fim de distribuir os folhetos propagadores das vossas novas idéias.
 Não empunharei a vossa bandeira utópica.
Não carregarei uma única pedra destinada ao alicerce do novo mundo.
Não farei proselitismo em praça pública; não carregarei água para o amálgama dos alicerces; não segurarei as linhas e o prumo que nivelarão as pilastras do novo mundo.
Estou muito ocupado comigo mesmo!
Ocupado em não fazer nada, em bolinar o meu umbigo. 
Sim, ocupado com o meu imenso individualismo reacionário!
Senhores utopistas, não tenho sonhos, não tenho projetos que engrandeçam a raça humana, portanto quero que o mundo permaneça o mesmo,
Que os homens continuem hipócritas e maus,
Que as mulheres engravidem a cada lua,
Que seus filhos nasçam como ratos e como ratos morram.
Não tenho nada com isso! Sou por acaso o criador?
Não será o homem um erro da Natureza?
Assim, com o meu  niilismo, não quero contribuir com a causa dos companheiros,
dos oprimidos, dos camaradas, dos descamisados, dos famintos, dos friorentos, dos
 “que vêm de longe”, dos excluídos, dos retirantes, dos Bóias frias e
“todos os condenados da terra” com diria o meu divino Frantz Fanon.
Esse palavrório, idealista, idiotizado, me ofende medularmente, mais que os palavrões de todos os bêbados dos quatro continentes, gritados nas esquinas do mundo.
Detesto palavras de ordem, detesto as frases feitas, programadas.
Detesto as soluções imediatísticas dos salvadores da pátria,
Portanto não quero contribuir com os meus parcos óbolos para a construção do Novo mundo!
20 de julho de 1996



quinta-feira, 13 de outubro de 2011

História de um cão

HISTÓRIA DE UM CÃO
Luiz Guimarães Jr.
Fonte – Arquivo Amaro Castro Corvo 1966 
amarocastrocorvo@Gmail.com

Eu tive um  cão. Chamava-se Veludo.
Magro, asqueroso, repelente, imundo,
Para  dizer numa palavra tudo,
Foi o mais feio cão que houve no mundo!

Recebi-o das mãos de um camarada
Na hora da partida. O cão gemendo,
Não me queria acompanhar por nada.
Enfim, malgrado seu o fui trazendo.

O meu amigo, cabisbaixo, mudo, olhava-o!
O Sol nas ondas se abismava.
Adeus me disse. E ao afagar Veludo
Dos olhos seus o pranto borbulhava.

Trata-o bem... Verás como rafeiro
Te indicará os mais sutis perigos.
Adeus!...e que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.

Veludo a custo acostumou-se à vida
Que o destino de novo lhe impusera.
Suas rugosas pálpebras sentidas
Chorava o antigo dono que perdera.

Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, pálido, agitando
A nua calda caminhava errante,
À luz da Lua, tristemente uivando.

Toussenet, Figuiet e a lista imensa
Dos modernos zoólogos doutores,
Dizem que o cão é um animal que pensa.
Talvez tenham razão esses senhores!

Lembro-me ainda, trouxe-me o correio
Cinco meses depois, do meu amigo,
Um envelope fartamente cheio.
Era uma carta. Carta!...Era um Artigo!

Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios e árvores gigantes...

 Assombrava-se ainda com a ligeira
Moralidade que encontrara a-bordo.
Contava o caso de uma passageira...
Mil coisas mais de que não me recordo.

Finalmente por baixo disso tudo,
Em nota bene do melhor cursivo,
Recomendava o pobre do Veludo.
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.

Enquanto eu lia, o cão tranqüilo e atento
Contemplava-me. E creia que é verdade!
Vi comovido... vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.

Depois lambeu-me as mãos humildemente.
Estendeu-se aos meus pés, silencioso.
Moveu a cauda - Adormeceu tranqüilo
Farto de um puro e satisfeito gozo. -

Passou-se o tempo. Finalmente um dia,
Vi-me livre daquele companheiro.
Veludo para nada me servia.
Dei-o à mulher de um carvoeiro

E respirei. Graças a Deus já posso
Dizia eu- Viver neste bom mundo
Sem ter de dar diariamente um osso,
À um bicho vil, à um feio cão imundo.

Gosto de animais, porém prefiro
À essa raça baixa e aduladora,
Um alazão inglês de cela ou tiro,
Ou uma gata branca e cismadora.

Mal respirei, porém, quando dormia,
E a negra noite amortalhava tudo,
Senti que à minha porta alguém batia.
Fui ver quem era... Abri... Era Veludo!

Saltou-me às mãos... Lambeu-me os pés ganindo...
Farejou toda a casa, satisfeito.
E, de cansado, foi rolar dormindo
Como uma pedra, junto do meu leito.

Praguejei  furioso! Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como um miserável
Ladrão ou pérfido gatuno!

E resolvi enfim!...Certo, é custoso
Dizer em voz alta e confessá-lo.
Para livrar-me desse cão leproso,
Havia um jeito só... Era matá-lo!

Zunia a asa fúnebre do vento.
Ao longe o mar. na solidão... Gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos,
De instante a instante ia o tufão crescendo.

Chamei Veludo. Ele surgiu-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto.
A chuva meus cabelos fustigava...

Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas, coléricos, vogamos.
Dava-me força o torvo pensamento.
Peguei um remo e com furor remamos...

Veludo, à proa, olhava-me choroso
Como um cordeiro no final momento.
Embora!...  Era fatal!...  Era forçoso,
Livrar-me enfim desse animal nojento.

No largo, ergui-o nos meus braços,
Arremessei às ondas num repente.
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente!

Voltei a terra. Entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
Pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo, nas ondas, moribundo.

Mas, ao despir dos ombros o meu manto,
Notei - ó grande dor - haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto.
Era um cordão de prata. Eu tinha-o

Unido contra o coração constantemente
E o conservava com o maior recato.
Pois minha mãe me dera essa corrente
E suspenso à corrente o seu retrato.

Certo caíra além, no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo.
E fora o cão! Foi esse bicho imundo
A causa do meu mal!...Ah, se Veludo,

Duas vidas tivera, duas vidas,
Eu arrancara áquela besta morta,
E áquelas vis entranhas corrompidas...
Nisto ouvi uivar á minha porta...

Veludo arfava. Penetrou-me o quarto
Estendeu-se a meus pés e docemente
Deixou pender da boca o tal retrato,
Suspenso à fina ponta da corrente

Fôra crível, ó Deus!...Ajoelhado
Junto ao cão, estupefato... Absorto!....
Palpei-lhe o corpo, estava engerelado!
Sacudi-o!...Chamei-o!...Estava morto.
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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

OXIDAÇÃO


 Os poeticidas que me perdoem, mas resolvi postar este Trabalho de Vieira Vivo, Poeta de Verdade!


OXIDAÇÃO
Vieira Vivo

O ruído roncava
A irascível mecânica dos metais
Solapando espaços
Contornando concretos opacos
Em suma agudez  de ângulos e aparas

Reentrâncias ferrosas feriam a tarde
Lançando limalhas
Rasgando rascantes roteiros
Retroagindo ásperos tiques
Tenazes e torpes.

Ao trôpego tangido turvo
Fatal feito fixa lâmina em ferro fosco
Finaliza o fato

Sucateava-se!

Supondo sagrar-se ferrugem
Safar-se na fenda
Fenecer no ar

(do livro Solo Fértil)

sábado, 1 de outubro de 2011



História de Minha Preta
Autora: Ana Martha Rocha Jaeger Loeblein – Campinas
Prêmio 2011 do Concurso de Contos da AAAC - Campinas

Um dia, ao sair de um estacionamento, vi um anúncio de doação de uma cachorra encontrada com um cadeado ao pescoço.
Sem pensar, fui buscá-la: nosso destino estava traçado.
Ao chegar ao local, ela me olhava esgueirando-se.
Grande, magra, vira-latas… amei.
Levei para casa.
Acostumava-se aos poucos… sentava ao sol e ficava horas olhando o céu… então conheci sua história: fora encontrada caminhando pelas ruas, magra.
No pescoço um cadeado, que já lhe encravara no corpo – os bichos comiam sua carne.
Preso ao cadeado, uma corrente de porteira, que de tão grande, atrapalhava seus passos trôpegos.
A cabeça pendia para o chão, pois o cadeado havia penetrado tanto, que não podia mais erguer a cabeça.
Ao seu lado, um filhote com a pata dilacerada, e ela cambaleando, o protegia e lambia suas feridas.
Resgatados, seu filhote não agüentou e cruzou a ponte do arco-íris.
Assim, há seis anos, Preta Maria chegou.
A cicatriz ela ainda carrega no pescoço, mas não a cicatriz da dor: é a cicatriz da guerreira, daquela que não desistiu, daquela que acreditou num mundo de amor entre homens e animais…
Preta não olha mais para o céu.
Preta brinca com seus irmãos peludos;
Preta late para o caminhão do lixo;
Preta morde seus brinquedos;
Preta ama maçãs;
Preta balança seu rabão e se atira na gente de alegria.
À noite, Preta coloca suas patas em meu ombro, e sonha…
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