sábado, 1 de outubro de 2011



História de Minha Preta
Autora: Ana Martha Rocha Jaeger Loeblein – Campinas
Prêmio 2011 do Concurso de Contos da AAAC - Campinas

Um dia, ao sair de um estacionamento, vi um anúncio de doação de uma cachorra encontrada com um cadeado ao pescoço.
Sem pensar, fui buscá-la: nosso destino estava traçado.
Ao chegar ao local, ela me olhava esgueirando-se.
Grande, magra, vira-latas… amei.
Levei para casa.
Acostumava-se aos poucos… sentava ao sol e ficava horas olhando o céu… então conheci sua história: fora encontrada caminhando pelas ruas, magra.
No pescoço um cadeado, que já lhe encravara no corpo – os bichos comiam sua carne.
Preso ao cadeado, uma corrente de porteira, que de tão grande, atrapalhava seus passos trôpegos.
A cabeça pendia para o chão, pois o cadeado havia penetrado tanto, que não podia mais erguer a cabeça.
Ao seu lado, um filhote com a pata dilacerada, e ela cambaleando, o protegia e lambia suas feridas.
Resgatados, seu filhote não agüentou e cruzou a ponte do arco-íris.
Assim, há seis anos, Preta Maria chegou.
A cicatriz ela ainda carrega no pescoço, mas não a cicatriz da dor: é a cicatriz da guerreira, daquela que não desistiu, daquela que acreditou num mundo de amor entre homens e animais…
Preta não olha mais para o céu.
Preta brinca com seus irmãos peludos;
Preta late para o caminhão do lixo;
Preta morde seus brinquedos;
Preta ama maçãs;
Preta balança seu rabão e se atira na gente de alegria.
À noite, Preta coloca suas patas em meu ombro, e sonha…
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